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TRABALHO, FORMAÇÃO E REGULAÇÃO PROFISSIONAL: ESTUDOS SOBRE A ENFERMAGEM PERNAMBUCANA


José Ronaldo Vasconcelos Nunes

ISBN: 978-65-991147-6-2
DOI: 10.46898/rfb.9786599114762

Sinopse

Trabalho da Enfermagem: esse é o tema deste livro que você tem em mãos. Aqui a Enfermagem é apresentada como um sujeito que se forma e se organiza politicamente no processo de trabalho. Pode-se dizer que não há novidade nessa apresentação. E isso é certo. Mas, também é certo que o imenso contingente de profissionais de Enfermagem precisa refletir muito sobre a sua própria profissão pela perspectiva do trabalho. Essa é uma afirmação que parece estar impregnada de tautologia. E pode ser. Ainda assim, insisto no convite para que todas as pessoas que exercem a profissão de Enfermagem separem ao menos um pequeno período de tempo para ler e refletir sobre as suas atividades pela perspectiva do trabalho, como a que é oferecida por este livro.
O fato de a Enfermagem ser uma profissão cuja história aparece muito imbricada aos projetos religiosos, principalmente da Igreja Católica, lhe confere a visão de representante social dos valores de abnegação e altruísmo contra a identidade de classe trabalhadora. Por essa perspectiva, a Enfermagem pode ser vista antes como missão de vida e, só secundariamente como trabalho no sentido ontológico e, portanto, político da palavra.
Como o processo sócio metabólico do capital também se interessa pela divisão sexual do trabalho, as instituições fundamentais de ampliação do Estado – a família, a escola e a igreja – educam silenciosamente a compreensão da Enfermagem como uma profissão de mulher, portanto, voltada para o mundo da economia doméstica e, no espaço público, sempre subalterna. Por essa perspectiva, as pessoas que fazem da Enfermagem o seu trabalho cotidiano devem sempre se apresentar receptivas a elogios e presentes, sejam flores (principalmente rosas) e/ou cargos subalternos.

Ambos os modos de entender a Enfermagem são muito nocivos. Excessivamente nocivos, quer haja ou não êxito na carreira profissional. E o mal é a deformação da consciência de classe trabalhadora e, consequentemente, perda de sentido da vida. Assim, destaco o importante papel que este livro cumpre no processo de educação permanente da categoria da Enfermagem.
A Enfermagem é um trabalho. Essa é a lição que permeia todo o livro. Assim sendo, é necessária à essa sociedade que se estrutura na complexa relação entre o Estado, o capital e o trabalho. Ressalta-se que a assimilação da Enfermagem como profissão necessária à sociedade deve implicar no entendimento sobre a centralidade da categoria trabalho (ANTUNES, 2000).
Antes de prosseguir, é importante ressaltar que não obstante a sua importância, a Enfermagem é apenas uma das muitas atividades constitutivas da centralidade do trabalho. O cerne é do trabalho. Esse entendimento, em vez de diminuir, exalta a Enfermagem, visto que contribui com o importante processo de subjetivação da Enfermagem como classe trabalhadora.
Pela centralidade do trabalho a Enfermagem pode ser vista como uma profissão multidimensional, ou seja, capaz de executar distintas atividades que, embora marcadas por especificidades, são passíveis de interconexão por quem as realiza tanto no plano do pensamento quanto no real. E esses processos de trabalho são os seguintes: administração, assistência, pesquisa, ensino e atuação política, os quais podem ser problematizados quanto ao objeto, aos agentes, aos métodos, às finalidades e aos produtos (SANNA, 2007).
Os agentes da Enfermagem são destaque em todos os capítulos deste livro. O que trata da assistência na atenção primária à saúde, o terceiro, dá relevância ao arsenal de conhecimentos e atitudes que possibilitam a execução da coordenação de cuidados no contínuo dos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS). A importância da Enfermagem aqui é muito bem colocada. Por isso é importante considerar que ao elevado grau de importância deve corresponder também um elevado grau de responsabilidade, inclusive com a atuação política, tendo em vista a realidade social, ideológica, política e econômica do Brasil. É por conta dessa realidade que se pode ler no último capítulo do livro uma convocação da Enfermagem para investir na mudança na assistência obstétrica em conformidade com os princípios do SUS a partir da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde que também é evocada no terceiro capítulo.
Dada a importância e a responsabilidade, a Enfermagem é convocada no primeiro capítulo a superar a organização do trabalho em uma rígida linha de produção na qual se destaca a hierarquização. Em concordância com o artigo na sua crítica ao taylorismo ressalta-se que a ênfase na hierarquização pode gerar graves problemas de eficácia, eficiência e efetividade ao desempenho da Enfermagem, principalmente, quanto ao poder político no âmbito organizacional. Problemas desse tipo podem acontecer quando a Enfermagem é posta numa linha produtiva por uma estrutura político- -administrativa que lhe seja superior. Isso pode ser verificado no quarto capítulo que trata do trabalho da Enfermagem onde ela é muito importante, na atenção primária à saúde. Assim, uma leitura muito atenta desse capítulo nos leva a concordar com o que está exposto no primeiro capítulo: a Enfermagem deve superar o taylorismo, e não ficar presa ao toyotismo, pois esse modelo também tem sérios problemas.
As empresas de prestação de serviços de saúde são estruturas superiores à Enfermagem, considerando o quantum de poder político que possuem. São empresas como essas que utilizam instrumentos avaliativos gerencialistas como o que é tratado no quarto capítulo. São essas mesmas empresas que remuneram as pessoas que exercem profissionalmente a Enfermagem e, ao fazê-lo, determina-lhes um lugar e uma situação na organização social do país como está muito bem descrito no segundo capítulo deste livro. Importa aqui apontar que uma pequena fração do pequeno grupo capitalista tem sido o autor das condições nas quais a classe trabalhadora brasileira vive. E um imenso contingente dessa classe é constituído por profissionais de Enfermagem. No plano das instituições a ordem sócio metabólica do capital reproduz as orientações que explicitam as desigualdades sociais pelo intenso manejo do instrumental político do ultra neoliberalismo.
Por isso, concorda-se com a convocação registrada ao final do quarto capítulo quanto a “urgente necessidade de fortalecimento e articulação (...) que integre as entidades representativas (...) em prol da valorização profissional (...)”. Importa ressaltar, neste ponto, que sem perder de vista os interesses da categoria, a Enfermagem pode e deve reclamar a articulação política de toda a força de trabalho em saúde em defesa da saúde como direito para cumprir os princípios constitucionais da universalidade, equidade, integralidade e participação da comunidade. E, para ajudar nesse processo, é importante conhecer o que a Enfermagem já construiu a partir do processo de trabalho de atuação política: o sexto capítulo nos dá os subsídios necessários.
Este prefácio foi elaborado em pleno processo de produção de doenças e mortes em decorrência da pandemia da Covid-19. Dados do Ministério da Saúde, de primeiro de maio de 2020, dão conta de que mais de seis mil pessoas já morreram e o número de casos ultrapassa noventa mil. Muitas das pessoas que adoeceram e perderam suas vidas são profissionais da Enfermagem. A realidade mostra, então que as estruturas ideológicas, políticas e econômicas brasileiras, cujas raízes começaram a se estabelecer no período escravocrata são nocivas para a Enfermagem, pois esta, enquanto profissão especializada no cuidado da saúde só pode ser exercida se os seus profissionais tiverem acesso aos recursos que determinam saúde e autonomia.
Neste momento, alguns intelectuais defensores do neoliberalismo estão exprimindo suas opiniões de reconhecimento sobre a importância dos profissionais de saúde como um todo, da Enfermagem em particular e do SUS. Embora seja agradável ler e ouvir tais posicionamentos considera-se que é pouco. Os agentes do capitalismo ortodoxo têm a obrigação de contribuir muito mais, tanto no enfrentando dos seus posicionamentos anteriores quanto se contrapondo às diversas ações ultra neoliberais e antidemocráticas em todas as instâncias da sociedade. Os princípios e diretrizes foram postos há mais de quarenta anos pelo Movimento da Reforma Sanitária, no qual a Enfermagem tem história. E a Enfermagem, como destaca este livro que me mobilizou intensamente, tem condições para contribuir no sentido da defesa da vida como está preconizado no artigo 196 da Constituição Federal de 1988.
Referências bibliográficas
ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? Ensaios sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. São Paulo: Cortez. 2000.
SANNA, Maria Cristina. Os processos de trabalho em enfermagem. Revista Brasileira de Enfermagem, v.60, n.2, p.221-224. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ reben/v60n2/a17v60n2.pdf. Acesso em: 02 mai. 2020. 2007.

Data de publicação:

18 de janeiro de 2021 16:11:39

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