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LEITURAS SUPERVIVENTES DE “O BURRINHO PEDRÊS”

Roberto Antônio Penedo do Amaral
Juliana Santana
Josué Borges de Araújo Godinho

ISBN: 978-65-5889-077-5
DOI: 10.46898/rfb.9786558890775

Sinopse

NONADA é um grupo de estudos e pesquisas da obra Guimarães Rosa (1908-1967) que reúne pesquisadores e pesquisadoras de diversas instituições de ensino superior: Universidade Federal do Tocantins (UFT), campus de Palmas e Porto Nacional; Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), campus de Carangola; Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de São Luís; Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), campus de Campo Grande; e, Universidade de Uberaba (Uniube).
Com caráter interdisciplinar e interinstitucional, o NONADA tem em vista a imersão na obra do escritor mineiro, de modo a proporcionar olhares diversos e abordagens distintas sobre a literatura rosiana, bem como trazer à luz a potencialidade de uma obra para a qual se lançam diferentes áreas do conhecimento.
No intuito de alcançar tal objetivo, os pesquisadores e as pesquisadoras do NONADA apresentam o seu Caderno 1, ou seja, a primeira publicação do grupo, resultante dos estudos e pesquisas sobre “O burrinho pedrês”, conto que inaugura Sagarana, obra de estreia de Guimarães Rosa, lançada em 1946.
Intitulado Leituras superviventes de “O burrinho pedrês”, o Caderno 1 do NONADA, conta com sete capítulos que exercitam uma prodigiosa travessia interdisciplinar, preconizada pela expressão “supervivência” (Überleben: supervida/superviver), tomada de empréstimo por Jacques Derrida(1930-2004) a Walter Benjamim (1892-1940), indicando a abertura para a alteridade ou para as múltiplas alteridades. Desse modo, a literatura se coloca em abertura para as diferentes formas de pensamento e de vida, que denotam as múltiplas formas de estar no mundo.
A esse sinuoso percurso é que se lança Carolina Silva Almeida, em “O sertão mineiro e seus artifícios perpetuadores da memória no conto rosiano “‘O burrinho pedrês’”. Ao eleger a memória, enquanto noção asseguradora da tradição sertaneja, a autora faz-se acompanhar de pensadores e pensadoras que têm nesse conceito complexo uma das fontes de suas pesquisas, como é o caso de Ecléa Bosi, Beth Brait, Chevalier e Gheerbrant, Ernst Curtius, Nádia Gotlib, Michael Polak, Paul Ricoeur e Paulo Rónai.
Ao percorrer trajetória diversa, Josué Borges de Araújo Godinho, em “Apontamentos cartográficos sobre um burro em linha de fuga (Ou como escrever com o burro)”, busca exercitar uma leitura que se traduz na cartografia dos componentes de subjetivação e de agenciamento desterritorializantes da sensibilidade e do desejo, deslocada do campo semântico do humano para uma possível reterritorialização na produção de subjetividade animal. Ao convidar Gilles Deleuze e Félix Guattari para a sua discussão, o autor vai problematizar como o personagem Sete-de-Ouros, sendo agenciado e tangido no território em que se movimenta, traça suas linhas de fuga, numa tensão entre subjetividade humana e intensidade animal.
Por sua vez, Juliana Santana, em “Sobre mito, filosofia e morte em ‘O burrinho pedrês’”, aponta semelhanças e diferenças em dois episódios do conto rosiano com expressões mítico-filosóficas gregas: a travessia feita por Sete-de-Ouros, Badú e Francolim no Córrego da Fome e o mito de Caronte; e, o canto do menino pretinho e o “mito” ou analogia do canto dos cisnes, descrito pelo Fédon de Platão. O Atravessamento do tema da morte é o pano de fundo dessa busca de convergência entre literatura, mito e filosofia associados.
Num ousado movimento interpretativo e conceitual, Lara Rafaelly Gomes, em “Desmascarando a tradição: uma abordagem crítica sobre os sujeitos marginalizados em ‘O burrinho pedrês’ de Guimarães Rosa”, coloca em xeque o antropocentrismo na tradição ocidental em relação a animais humanos, mas, principalmente, a animais não humanos. Segundo a autora, os paradigmas tradicionais do que é humano continuam colonizando os espaços reais e os ficcionais, ocasionando o apagamento de sujeitos marginalizados. Chama a atenção para o fato de “O burrinho pedrês” ser uma narrativa interpeladora ao dar lugar a personagens e ambientes pouco valorizados na literatura ocidental.
Larissa da Silva Melo, em “Animal, humano, e o velho burrico rosiano”, investiga o processo de humanização por que passa “Sete de Ouros”. A autora afirma que a mencionada humanização, de forma contraditória, não se efetiva no caso do burrinho pedrês, sem passar, a princípio, por gestos de inferiorização e desvalorização. Destaca, em razão disso, a forma surpreendente como o narrador do conto informa aos leitores e às leitoras, a transformação do animal miúdo e resignado no herói inesperado da estória.
Ao convidar Paulo Freire e Antonio Candido para pensar juntos, Maria Gabriella Rodrigues de Souza, em “‘O burrinho pedrês’: uma travessia conduzida por Paulo Freire e Antonio Candido”, promove uma instigante discussão acerca da relevância entre leitura, literatura e formação humana. Como exercício possibilitado por essa tríplice relação, a autora tematiza a questão de gênero, o racismo estrutural e a hierarquização econômica e social. A aposta do texto é a de que a leitura literária pode cumprir um importante papel na formação humana de grupos populares.
Por fim, Roberto Antônio Penedo do Amaral, em “A mestria vaqueira em ‘O burrinho pedrês’”, busca desenvolver a noção de mestria vaqueira, por um viés cultural e antropológico. Conforme o autor, a mestria vaqueira resguarda um processo formativo transgeracional por meio do qual um aprendiz de vaqueiro torna-se um vaqueiro mestre. É destacado nesse processo a aproximação que há com o ritual de passagem, no qual o evento da festa e do sacrifício são tomados como indiciadores velados da tensão entre a ordem e a transgressão.
Ao trazer a público Leituras superviventes de “O burrinho pedrês”, como o seu Caderno 1, o NONADA renova o convite para que outras e diversas leituras sejam operadas sobre o manancial de significantes, significados e sentidos proporcionados pela indômita linguagem literária engendrada pelo alquimista da palavra de Cordisbugo, Guimarães Rosa.

Roberto Antônio Penedo do Amaral
Juliana Santana
Josué Borges de Araújo Godinho
Organizadores

Em memória de Alfredo Bosi.

Data de publicação:

14 de junho de 2021 23:48:16

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